Tendências 2026: comércio exterior brasileiro avança rumo à era da aduana inteligente

Tecnologia, dados e sustentabilidade redefinem o futuro do setor

O comércio exterior brasileiro vive um momento de virada histórica. Impulsionado por avanços tecnológicos, mudanças regulatórias e novas exigências de sustentabilidade, o setor se aproxima de um modelo mais integrado, inteligente e orientado por dados — movimento que deve reposicionar o Brasil no cenário global até o fim da década.

A avaliação é de Tiago Barbosa, um dos idealizadores do PUCOMEX enquanto atuava em tempo integral no MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços) como Gerente do Portal Único do Comércio Exterior e Coordenador-Geral de Facilitação do Comércio, e de André Barros, CEO da eComex. Para ambos, a combinação entre inovação, governança e colaboração institucional marca o início de uma nova fase.

“O comércio exterior está entrando em uma nova arquitetura. Saímos da lógica documental para a lógica orientada por dados, interoperabilidade e inteligência artificial”, afirma Barbosa. “Setor público e privado estão, finalmente, alinhados, e esse alinhamento muda tudo”, complementa Barros.

Crescimento da corrente de comércio reforça maturidade do setor

Mesmo diante de um ambiente internacional desafiador, o Brasil deve manter superávits expressivos. Projeção mais recente para 2025, divulgada pelo Banco Central, é de cerca de US$62,9 bilhões, com estimativa de alta para US$65,7 bilhões em 2026. Em 2024, a corrente de comércio do país registrou um crescimento de 3,3%, ampliando também sua participação nas exportações globais.

Para Barbosa, o resultado reflete o efeito acumulado das iniciativas de facilitação do comércio: “A maturidade do setor privado e o ganho de eficiência trazido pelo Portal Único tornaram o processo com menos atrito e mais previsível. Isso se traduz diretamente em competitividade.”

Portal Único e DUIMP consolidam um dos maiores projetos de Estado do país

A consolidação da DUIMP representa o ponto alto de um ciclo iniciado em 2013 com o lançamento do Portal Único de Comércio Exterior. Barbosa destaca que o projeto, concebido como iniciativa de Estado, manteve continuidade, governança e orçamento ao longo de cinco governos, algo incomum na administração pública.

Segundo o especialista, o maior impacto vai além da tecnologia: “A DUIMP é a expressão de uma mudança estrutural. O país revisou processos, atualizou marcos normativos e adotou um modelo de risco compatível com as melhores práticas internacionais. E, principalmente, consolidou um ambiente de colaboração entre governo e setor privado.”

Barros reforça: “Hoje existe diálogo real. Mudanças regulatórias são discutidas, planejadas e implementadas com previsibilidade. Esse nível de integração era impensável dez anos atrás.”

Reforma tributária inaugura novo paradigma para o fluxo financeiro das importações

A partir de 2027, a nova Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) será recolhida na entrega da carga — e não mais no registro da operação. A mudança aproxima o Brasil de modelos internacionais e reduz significativamente a exposição financeira das empresas.

“Desvincular tributo do registro dá liquidez ao processo e incentiva o despacho antecipado. É uma alteração silenciosa, mas estrutural”, afirma Barbosa.

Outro ponto transformador é o PL 215, que permitirá que empresas certificadas como OEA paguem tributos até o dia 20 do mês subsequente.

“É um ganho de caixa relevante, que premia conformidade com vantagem competitiva”, explica o especialista.

Aduana inteligente: IA eleva precisão e reduz burocracia

O avanço da inteligência artificial na Receita Federal já demonstra resultados. Entre 2016 e 2022, a taxa de seleção de cargas caiu de 8% para 2,8%, enquanto a arrecadação adicional subiu de R$170 milhões para R$370 milhões, reflexo de sistemas de análise de risco cada vez mais sofisticados.

“A aduana deixa de funcionar a partir de documentos e passa a operar a partir de dados. A capacidade de predição aumenta e a intervenção se torna mais precisa”, afirma Barbosa.

No setor privado, a automação segue o mesmo caminho. A eComex utiliza agentes digitais capazes de extrair dados, interpretar documentos e registrar informações em sistemas governamentais. “Isso libera o profissional para atividades estratégicas, diminui erros e aumenta a velocidade operacional”, explica Barros.

ESG ganha força regulatória e redefine cadeias exportadoras

A partir de 2027, empresas de capital aberto deverão reportar riscos climáticos com base nas normas IFRS S1 e S2, e a responsabilidade pelas informações passará a ser do CFO. Apesar de 95% das grandes empresas brasileiras publicarem relatórios de sustentabilidade, apenas 10% integram de fato os critérios às estratégias corporativas.

Para Barbosa, essa mudança encerrará definitivamente o greenwashing. “ESG passa a ser medido, auditado e comparável. Sem rastrear carbono — sobretudo o escopo 3 — será impossível competir em mercados exigentes como a União Europeia.” 

“Não se trata apenas de divulgar dados, mas de rastrear toda a cadeia: fornecedor, modal, logística internacional, armazenagem. Exige tecnologia e planejamento de longo prazo”, ressalta Barros.

Tendências tecnológicas aceleram a transição para cadeias altamente automatizadas

Barbosa destaca que a próxima década será marcada pela incorporação de tecnologias que já começam a despontar em aduanas avançadas. Ele cita a interoperabilidade internacional de dados, que tende a reduzir ou substituir declarações tradicionais; a evolução da IA agêntica, capaz de executar operações ponta a ponta; e o uso crescente de robôs polifuncionais em portos e centros logísticos. O decision intelligence deve tornar decisões críticas mais rápidas e fundamentadas, enquanto a chamada “inteligência ambiental invisível” permitirá rastrear eventos logísticos em tempo real, sem intervenção humana.

Segundo o especialista, a convergência dessas tecnologias deve acelerar a automação da cadeia global e permitir a redução drástica da burocracia, alinhando o Brasil à agenda internacional.

A transformação humana será o eixo central da nova fase

Apesar dos avanços tecnológicos, ambos os especialistas concordam que o maior desafio dessa nova etapa é humano.

“A transformação digital já aconteceu. Agora é a transformação humana. O profissional precisa desenvolver pensamento analítico, visão sistêmica e mentalidade sustentável para liderar esse processo”, afirma Barros.

Com esse objetivo, a empresa lançou a Comex Pulse Comm, comunidade voltada ao desenvolvimento de líderes capazes de atuar nesse ambiente de alta complexidade.

“A tecnologia é o meio. Quem sustenta o futuro do comércio exterior são as pessoas”, conclui o executivo.

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Fundada em 1986, a COMEX, pioneira em desenvolvimento de aplicações para gestão de processos de comércio exterior. Primeira empresa no Brasil a integrar seus aplicativos aos principais sistemas ERPs do mercado e a disponibilizar uma aplicação 100% WEB para gestão do comércio exterior.

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