O que está em jogo entre Mercosul e UE? Entenda principais pontos do acordo

França e Polônia já sinalizam oposição ao acordo e somados à Itália têm força suficiente para barrá-lo no Conselho Europeu.

O “não” da primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, ao acordo entre o bloco sul-americano Mercosul e a União Europeia deve complicar a assinatura do tratado em 2025 — que estava prevista para acontecer no sábado (20) na Cúpula do Mercosul, em Foz do Iguaçu, no Paraná.

A França, a Polônia e a Hungria também já sinalizaram oposição.

Os parlamentares da UE apoiaram, na terça-feira (16), controles mais rígidos sobre as importações de produtos agrícolas no âmbito da proposta.

Abaixo, veja o detalhamento sobre os pontos gerais do acordo comercial e o que está em jogo.

Redução de tarifas

O Mercosul eliminará as tarifas sobre 91% das exportações da UE, incluindo automóveis, ante os atuais 35%, ao longo de um período de 15 anos. A UE, por sua vez, eliminará progressivamente as tarifas sobre 92% das exportações do Mercosul ao longo de um período de até 10 anos.

O Mercosul também eliminará as tarifas sobre produtos agrícolas da UE, como os 17% sobre vinhos e os 20-35% sobre bebidas destiladas.

Para produtos agrícolas mais sensíveis, a UE oferecerá cotas maiores, incluindo 99.000 toneladas adicionais de carne bovina, enquanto o Mercosul concederá à UE uma cota isenta de tarifas de 30.000 toneladas para queijos.

Existem também quotas da UE para aves, carne de porco, açúcar, etanol, arroz, mel, milho e milho doce, e para o Mercosul, para leite em pó e fórmulas infantis.

A carne bovina adicional representa 1,6% do consumo de carne bovina da UE e 1,4% para aves. Os defensores do acordo apontam para as importações existentes como prova de que o Mercosul cumpre os padrões da UE.

O acordo reconhece 350 indicações geográficas para impedir a imitação de certos produtos alimentares tradicionais da UE, como o queijo Parmigiano Reggiano.

O que dizem os proponentes

A Comissão Europeia e os proponentes, como a Alemanha e a Espanha, afirmam que o acordo oferece uma alternativa à dependência da China, especialmente para minerais críticos como o lítio, metal essencial para baterias. Ele garantirá a isenção de impostos sobre a exportação da maioria desses materiais.

Além disso, também afirmam que o acordo oferece alívio ao impacto das tarifas impostas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

A Comissão Europeia afirma que o acordo de livre comércio é o maior já firmado em termos de redução de tarifas, eliminando mais de 4 bilhões de euros (cerca de US$ 4,7 bilhões) em impostos sobre as exportações da UE anualmente, e é uma parte necessária do esforço da UE para diversificar as relações comerciais.

Ademais, dado o conjunto modesto de acordos comerciais do Mercosul, a UE teria uma vantagem inicial e observa que as empresas da UE poderão concorrer a contratos públicos no Mercosul nas mesmas condições que os fornecedores locais – algo que o Mercosul não ofereceu anteriormente em acordos comerciais.

Há também medidas de salvaguarda para lidar com possíveis perturbações no mercado.

O que dizem os críticos

Os agricultores europeus protestam contra o acordo, alegando que ele levaria à importação barata de produtos sul-americanos, principalmente carne bovina, que não atendem aos padrões ambientais e de segurança alimentar da UE. A Comissão Europeia afirma que os padrões da UE não serão flexibilizados.

O acordo inclui compromissos ambientais, como o de impedir o desmatamento após 2030. No entanto, grupos ambientalistas afirmam que ele carece de medidas efetivas.

A organização Amigos da Terra classificou o acordo como “devastador para o clima” e afirma que isso levaria ao aumento do desmatamento, já que os países do Mercosul venderiam mais produtos agrícolas e matérias-primas, muitas vezes provenientes de áreas florestais, incluindo a Amazônia.

França, maior produtora de carne bovina da UE, declarou que assinaria o acordo de livre comércio somente se ele “protegesse os interesses” da agricultura francesa e da UE.

Itália, Hungria e Polônia também manifestaram oposição. Juntos, os quatro países poderiam bloquear o acordo.

Como a UE tenta conquistar aprovação?

Quando a Comissão apresentou o acordo para aprovação em setembro, estabeleceu um mecanismo pelo qual o acesso preferencial ao Mercosul para produtos agrícolas sensíveis, como a carne bovina, poderia ser suspenso.A avaliação da Comissão pata a necessidade de tais salvaguardas seria se os volumes de importação aumentassem em mais de 10% ou se os preços caíssem nessa mesma proporção em um ou mais países da UE. O Parlamento Europeu, na terça-feira (16), apoiou um valor mais baixo, de 5%.

Também haveria um estudo para alinhamento dos padrões de produção entre produtos nacionais e importados, principalmente em relação a pesticidas e bem-estar animal.

A Comissão também afirmou que reforçaria os controles fronteiriços sobre alimentos, produtos de origem animal e vegetal que entram na UE, aumentando o número de auditorias e verificações em países terceiros.

Por fim, afirma que o próximo orçamento da UE oferecerá um fundo de crise de 6,3 bilhões de euros para os agricultores da UE, que poderia cobrir o “evento improvável” de o acordo prejudicar os mercados agrícolas da UE.

Fonte: CNN

+ posts

Fundada em 1986, a COMEX, pioneira em desenvolvimento de aplicações para gestão de processos de comércio exterior. Primeira empresa no Brasil a integrar seus aplicativos aos principais sistemas ERPs do mercado e a disponibilizar uma aplicação 100% WEB para gestão do comércio exterior.

Compartilhar:

Posts recentes

Após nova conversa com governo, EUA devem estender negociações para evitar tarifaço

O governo brasileiro e os Estados Unidos devem estender o prazo do grupo de trabalho criado para negociar...

Brasil supera recorde histórico de exportação de soja

País já embarcou mais de 51,6 milhões de toneladas em 2026, volume superior ao total...

China exige novas regras para importação de produtos alimentícios

Regulamento entra em vigor nesta segunda-feira e exige adequações de exportadores do agronegócio para manter...