DUIMP e Reforma Tributária: obrigação ou oportunidade?

Atuando no Comex há 14 anos, algumas coisas não mudaram. Desde o início do projeto Sped, NF-e, DUE, DUIMP e agora Reforma Tributária, sempre que pergunto para a maioria das empresas com as quais converso: como estão as coisas? Como estão os projetos? As respostas são as mesmas: um caos, corrido demais, tendo que atender às novas “mudanças legais”. Destaco o termo “mudanças legais” porque é a forma com que as empresas encaram estes projetos.

Na verdade, vivemos a maior oportunidade para alavancar resultados, reduzir custos e aumentar margem está acontecendo agora, e muitas empresas ainda não se deram conta disso. Tratam destes temas apenas como mais obrigações legais que têm que cumprir.

Durante décadas, o comércio exterior foi tratado dentro das empresas como uma área essencialmente operacional. Seu papel era garantir conformidade, atender exigências governamentais, cumprir prazos e reduzir riscos aduaneiros. Isso é passado. O comércio exterior moderno ocupa uma posição muito mais relevante dentro da estratégia corporativa. Em um cenário de pressão por eficiência, aumento da competitividade global e necessidade constante de ganho de produtividade, ele se tornou uma fonte direta de geração de valor, impacto financeiro e vantagem competitiva.

As empresas que ainda enxergam mudanças como DUIMP e Reforma Tributária apenas como novas obrigações regulatórias estão perdendo a principal mensagem por trás dessa transformação. Estamos vivendo uma das maiores jornadas de simplificação da história do comércio exterior brasileiro.

Conformidade não é diferencial, não é opcional, é OBRIGAÇÃO

Ao surgirem novos requisitos regulatórios, grande parte da energia é direcionada apenas para garantir que a empresa continue cumprindo essas obrigações legais. Se você resolveu descer para o play e jogar esse jogo, conformidade é o mínimo que sua empresa tem que entregar. Para o Radar, há leis e requisitos mínimos que devem ser cumpridos. Para ter um benefício fiscal, a utilização de algum Regime Aduaneiro Especial ou certificações como OEA, seja qual for, há regras, leis e requisitos próprios. Cumpri-los é requisito, não opção.

Toda empresa que importa ou exporta precisa atender às exigências regulatórias. Isso não gera vantagem competitiva. Apenas permite que ela comece ou continue a operar. O diferencial surge quando a organização utiliza os movimentos de transformação regulatória como oportunidade para repensar processos, eliminar atividades manuais, integrar informações e construir uma operação mais eficiente e inteligente.

A janela de simplificação precisa ser aproveitada

Projetos como o PUCOMEX e a DUIMP representam uma mudança estrutural na forma como o Brasil realiza operações de comércio exterior. A proposta do Portal Único é simplificar processos, reduzir redundâncias, integrar órgãos governamentais, padronizar informações e aumentar a eficiência da cadeia logística e aduaneira. Não estamos falando apenas de substituir sistemas ou trocar documentos. Estamos falando da possibilidade de revisar processos que, em muitos casos, permanecem praticamente inalterados há décadas.

Saímos de um cenário de documentos, processos e fiscalização para um cenário de dados, processos e documentos. Essa é uma oportunidade para que as empresas automatizem atividades repetitivas, eliminem controles paralelos em planilhas, estruturem dados com qualidade, utilizem inteligência para tomada de decisão, reduzam custos operacionais, aumentem previsibilidade e governança e usem de forma inteligente estratégias fiscais e tributárias.

As companhias que aproveitarem esse momento para transformar seus processos sairão da transição mais fortes do que entraram.

O impacto não está apenas na operação, mas na margem

Muitas lideranças ainda associam comércio exterior exclusivamente à movimentação física de mercadorias. Não faltar estoque, não faltar matéria-prima que atrase uma linha de produção ou não deixar faltar estoque para venda e distribuição são as prioridades. Mas, na prática, uma gestão moderna da área influencia diretamente indicadores financeiros da companhia.

Ganhos de eficiência operacional, correta utilização de regimes aduaneiros, melhor gestão tributária, redução de retrabalho, aumento da produtividade das equipes e maior visibilidade sobre custos logísticos podem representar impactos significativos na rentabilidade do negócio.

Ainda vejo empresas com custos altos com demurrage e armazenagem, sendo penalizadas com multas pela simples falta de documentos ou erros de digitação e ainda empresas que estão no Brasil com suas margens sendo consumidas por negociações globais, como frete, para ficar apenas em um exemplo. A sua operação de Comex pode impactar diretamente a margem da sua companhia.

Reforma Tributária e DUIMP fazem parte da mesma visão de futuro

Outro ponto importante é compreender que Reforma Tributária e Portal Único não são iniciativas isoladas. Ambas fazem parte de um movimento muito maior de modernização do ambiente de negócios brasileiro.

A Reforma Tributária busca simplificar o sistema tributário nacional, reduzir complexidades históricas e aumentar a previsibilidade para empresas. A nova estrutura baseada em CBS e IBS foi concebida justamente para criar um ambiente mais simples e eficiente. Imaginem: leis e impostos federais, 27 unidades federativas e quase 6 mil municípios com legislação própria que serão substituídas por uma única legislação, Lei Complementar 214/2025.

Da mesma forma, a DUIMP foi criada para simplificar operações, integrar informações e aumentar a eficiência dos processos de importação. É uma iniciativa brasileira, mas faz parte de um movimento global de modernização e facilitação do comércio exterior baseado no conceito Single Window (Janela Única de Comércio Exterior), promovido por organismos como OMA/WCO. Detalhe: o Brasil tem sido protagonista em todo esse processo.

Sob uma perspectiva estratégica, os dois movimentos apontam para a mesma direção: mais simplicidade, mais transparência, mais produtividade e mais competitividade para as empresas brasileiras. Por isso, é um erro encará-los apenas como exigências legais. Eles são, na verdade, instrumentos de transformação.

Inovar não pode esperar o fim da transição

Muitas empresas estão adiando investimentos em automação, inteligência de dados e modernização tecnológica porque estão concentradas exclusivamente em atender aos cronogramas das novas regulamentações. Estão caindo em uma armadilha, pior, criada por elas mesmas. A transformação regulatória não deve interromper a inovação, mas acelerá-la.

As organizações mais bem-sucedidas serão justamente aquelas que utilizarão esse período para construir processos digitais, integrar áreas, elevar a qualidade dos dados e criar uma operação preparada para os próximos anos. Quem esperar a transição terminar para iniciar sua transformação provavelmente chegará atrasado.

Um projeto para as empresas e para o Brasil

O verdadeiro significado do Portal Único, da DUIMP e da Reforma Tributária são iniciativas concebidas para simplificar o ambiente de negócios, reduzir burocracias históricas e aproximar o Brasil das melhores práticas internacionais. O sucesso desses projetos beneficia simultaneamente empresas, governo e sociedade.

Empresas tornam-se mais competitivas, o comércio exterior ganha eficiência e o país reduz barreiras operacionais e fortalece sua inserção global.

Por isso, talvez a principal pergunta que os executivos deveriam fazer neste momento não seja se suas empresas estarão preparadas para atender às novas exigências. A pergunta correta é: Como minha empresa pretende aproveitar a maior oportunidade de transformação e simplificação do comércio exterior brasileiro das últimas décadas?

(*) Renato Figueiredo, Diretor Comercial eComex

Fonte: Comex do Brasil

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